A essência e o processo do discipulado
- Elias De Oliveira Junior

- 29 de mai. de 2018
- 7 min de leitura
O texto abaixo é um rascunho de minha compreensão dos elementos envolvidos no discipulado ou santificação do cristão. Preciso deixar claras duas coisas: A primeira é que não me considero uma autoridade no assunto, mas, como um pastor cristão, tenho o dever (e prazer) de refletir constantemente sobre ele. A segunda é que não trabalhei lapidando esse texto - é um rascunho. Apenas fui digitando como numa prática de brainstorming para não perder as ideias. Depois quero poder avaliar o peso de cada afirmação. O ponto é que ao longo dos últimos anos tenho procurando compreender qual a importância de se assumir uma identidade espiritual em Cristo, como abrir-se para uma experiência maior com a Presença do Espírito Santo, como se opera a transformação do caráter e qual o papel de Deus e do crente nesse projeto. Leia sabendo que devo ter me repetido em vários pontos, sido impreciso em outros, mas, estou tentando achar o "ponto", e aplicar isso em meu ensino na Igreja.
Vejamos:
I - O que é o Discipulado?
É o processo de "modelagem" de Cristo que se inicia na regeneração do homem que crê no Evangelho. A expressão modelagem deve ser entendida no sentido em que é empregada na PNL, sendo Cristo o Modelo da nova vida, a expressão da verdadeira natureza de um filho de Deus, a base sobre a qual podemos desenvolver uma vida de semelhança com Deus, como seus filhos. A modelagem envolve a contemplação do modelo com o objetivo de absorvê-lo. Para mim a expressão Imitar a Cristo é insuficiente. Modelar para manifestar seria mais apropriado. Modelar porque temos um referencial e fonte. Manifestar porque fomos regenerados e nos tornamos participantes de sua natureza. É necessário lembrarmos que se de um lado temos Deus em Cristo nos chamando para a completa semelhança, de outro temos o Espírito Santo em nossa natureza regenerada, nos impulsionando para isso, testemunhando constantemente com o nosso espírito (natureza regenerada) que somos filhos de Deus.
Esse processo se inicia quando a pessoa se converte a Cristo. Porém, tal conversão só é "confirmada" ou manifesta pela evidência de que este processo está em andamento na medida em que se percebe uma dedicação ao aprendizado, de dedicação à vida de comunhão na comunidade cristã e no testemunho perante o mundo.
Logo, o discipulado é no seu todo uma vida de transformação, uma revolução operada no ser integral do homem.
Envolve a renovação do coração sustentada pela já ocorrida mudança de natureza espiritual.
Somos Regenerados para uma vida santa, para nos revestir de Cristo, para viver e andar no Espírito, oferecendo nossos membros a Deus como instrumentos de justiça, sendo transformados de glória em glória.
II - Quais os erros a se evitar nesse assunto?
1- pensar o discipulado como consistindo apenas de maior conhecimento bíblico
2- Reduzir o discipulado a um processo de reforma moral
3- Tratar o processo com excessiva ênfase no papel do líder - dando margem a um sistema manipulativo e criador de dependência.
4- Colocar uma ênfase inadequada nos objetivos comportamentais, ignorando aspectos psicoespirituais sobre os quais o líder deve adquirir alguma proficiência.
Sem essa ênfase na transformação íntima operada pela fé na Graça de Deus, qualquer espiritualidade se enquadra na categoria definida por Jesus como Caiar o sepulcro ou lavar o exterior do prato, sem alterar o que se encontra do lado de dentro. Trata-se de uma confusão que mantém o entendimento do processo no mesmo nível dos fariseus do tempo de Jesus, e da religião em geral .
5- Desenvolver uma noção na qual Cristo seja um lindo adereço, mas não o centro de tudo.
Este é outro erro muito comum e consiste basicamente em tentar perpetuar um antigo sistema de vida e religião, no qual se tenta encaixar Jesus. Quando se trata de religião Jesus seria visto como sendo um grande mestre da ética e da espiritualidade.
A carta aos Hebreus parece ter sido escrita para uma comunidade que estava às voltas com esse problema. Porém, quer isso se dê num nível individual, ou no nível de uma estrutura religiosa, seja num contexto judaico, seja ou em algum outro contexto religioso, Cristo tem que ser diminuído para que estruturas não tenham que ser seriamente corrigidas ou totalmente descartadas. Isso é chamado por Jesus de pôr vinho novo em odres velhos.
A conversão cria os novos odres nos quais se experimenta a nova prática de vida. Externamente pode-se notar grande semelhança com outros sistemas, mas, Cristo precisa ser visto como aquele que é antes de todas as coisas, o Deus vivo revelado em carne, o Salvador e Senhor.
III - Os desafios impostos pelas circunstâncias vividas por cada um
O sofrimento é a contingencia quase sempre certeira da rejeição e/ou oposição e/ou perseguição do mundo, da resistência da carne e das tentações do diabo
IV - O imperativo de levar a Cruz
A cruz é a determinação de fazer a vontade de Deus com a convicção de que o mundo foi desprezado em prol do Reino de Deus.
V - As exigências do processo
1 - Arrependimento
2 - Confiança na graça de Deus, na Sua palavra
3 - Meditação na Verdade - fidelização do pensamento pela profunda consideração das implicações da palavra. Trata-se de um trabalho que tem como objetivo a internalização da verdade. Esse é um trabalho de fé no qual afirmamos o que Deus afirma e procuramos nos ver à luz de Sua autorevelação. É preciso estudo e prática constantes, na dependência do Espírito Santo para chegarmos a compreender e adquirir consciência de quem nós somos "em Cristo".
4 - Contemplação de Cristo
Aquele que nos introduziu na vida do Reino, disponibilizando para nós os recursos do Reino e dando-nos autoridade em seu nome.
Aquele que se fez fonte da essência de nossa nova natureza ao assumir, redimir e elevar nossa natureza em si mesmo através de sua obra de encarnação, morte, ressurreição e ascenção
Aquele que nos fortalece para a santidade por meio do Espírito que nos deu
Aquele por meio de quem temos acesso ao Pai, como filhos amados
Lembrando que a contemplação de Cristo é tornada eficaz e efetivada pela Pessoa do Espírito e seu testemunho em conjunto com a palavra escrita, por nossa natureza regenerada e inclinada para Deus (e a resistência à transformação decorre da natureza caída, do ambiente mundano, das armadilhas de satanás, o que exige...).
5 - Prática da vigilância e disponibilidade em oração para imitar a Cristo contando com sua habitação em nós.
A confissão do pecado deve ser feita sempre que percebemos ter escorregado. A ela se segue a confissão da realidade/verdade espiritual.
6 - Disciplinas espirituais para despertar a vigilância, a mente alerta, o coração receptivo
7 - Em todo esse processo, a oração é o elemento fundamental:
pedir por uma intenção pura de santidade; pedir as mudanças específicas percebidas, pedir por maior iluminação no entendimento; pedir por plenitude na vida espiritual, pedir comunhão com o Deus vivo.
8 - O convívio com uma comunidade de cristãos sob orientação de uma liderança comprometida é necessário, crescemos em família. A comunidade proporciona orientação. O indivíduo deve ser ativo em buscá-la. É ela particularmente importante para o desenvolvimento do caráter e confirmação do fruto do Espírito, pois, o trato com o outro - cristão ou não cristão - é parte natural do discipulado.
9 - A oração de rejeição do pecado em todas as suas formas e da influencia de agentes do maligno
Este é um ponto em que se deve prestar muita atenção para não se cair em extremos. A igreja primitiva tinha o hábito de orar pelos candidatos ao batismo a fim de apoiá-los em seu processo de libertação de influencias malignas. Deve-se evitar extremos nesse processo a fim de não se criar uma religião centrada no medo do inimigo. Somos mais que vencedores... somos livres... estamos reivindicando e declarando esta vitória.
10 - Disposição de obedecer por fé. A obediência requerida é uma alegre entrega de si ao trabalho de transformação na imagem de Cristo em cooperação com o Espírito Santo.
11 - Abandono do próprio ego nas relações pessoais conflitantes. Inseri por último o aspecto em que toda a estrutura permanecerá em pé ou cairá: o perdão e amor ao outro, especialmente em se tratando de desafetos, perseguidores, opositores. Se nossa espiritualidade não nos trouxe até aqui, ela se desviou em algum ponto. Talvez a parede inteira precise ser derrubada e o alicerce revisto. Se é em Cristo que estamos alicerçados, então podemos recomeçar o trabalho. Em Cristo perdemos todas as razões para manter em escravidão a quem quer que seja. De certo modo temos o dever de perdoar... mas, entenda que se tivermos avançado na semelhança com Cristo, estaremos vendo as pessoas de um modo que torna impensável não perdoá-las. O princípio aqui é o de sair da cena para que Deus entre e esvaziar para que Deus encha.
VI - As camadas desse processo:
A Bíblia diz que na medida em que contemplamos a Cristo, o Espírito (que testemunha com nosso espírito que somos filhos e herdeiros de Deus) exerce Seu poder nos transformando na imagem de Cristo (2Co 3.18). Essa transformação pode ser considerada o desenvolvimento ou crescente expressão daquilo que somos em Cristo. Nesse processo nossa nova natureza (nosso "ser em Cristo") expande-se e remodela nossa vida desde o coração (abrangendo intenções e ações), expressando ações que manifestam "no mundo" a imagem daquele que contemplamos.
Aqui estão as "camadas" que enxergo nesse processo, mas, entenda-se que todas as etapas a seguir devem ser vivenciadas num ambiente de louvor, de gratidão a Deus, na companhia de uma comunidade de fé e amor e considerando as circunstâncias da vida individual:
1- A conversão e consequente mudança de Natureza espiritual, predestinada a se expressar numa completa semelhança com Cristo
2- O aprendizado da palavra e confronto das crenças rumo a uma autoconsciência espiritual fundamentada no filho de Deus
3- Esclarecimento sobre as implicações de um discipulado sério para que haja a retificação da intenção
4- Treinamento nas disciplinas espirituais para desimpedir e estimular a expressão da nova natureza (fortalecendo a intenção do aprendiz).
5- Trabalho sobre o plano das ações - adotar a linha de ação de Cristo, obedecendo-o e imitando-o a fim de desfrutar Sua presença capacitadora; Logo, não se trata de leis e sanções, mas sim, de aprofundamento da consciência e da disposição para que o comportamento apropriado possa expressar-se, manifestando a vida que é "Cristo em vós: esperança da glória".
Perceba, então que seguimos o Cristo vivo e presente em nós e conosco.
Imitando-o experimentamos sua habitação e isso resulta em transformação de nossa vida à sua imagem.
A remodelagem de nossa vida interior e de nossos comportamentos nos põe em ressonância com ele e nos permite manifestar o poder que foi demonstrado em sua vida terrena e que flui para nós e através de nós mediante Sua vida ressuscitada e assunta ao céu.
VII - A disponibilidade do Reino
O Reino está disponível para nós e deve manifestar-se através de cada filho de Deus. A Bíblia nos diz que, como filhos, estamos assentados com Cristo em regiões celestes. Fazemos parte do reino, mas, normalmente estamos inconscientes disso.
Mas, estando ele conosco e em nós, e, tendo sido regenerados, podemos experimentar em grau cada vez maior, com glória cada vez maior, tal realidade.
Esta deve ser a santa ambição do discípulo: ser como Seu mestre (Mateus 10.25; 1Coríntios 11.1; Efésios 5.1).





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