A PONTE ENTRE A TEORIA E A PRÁTICA DA ESPIRITUALIDADE
- 23 de jan. de 2021
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Ter uma percepção equivocada do propósito de Deus e da mensagem do Evangelho pode produzir um cristianismo estéril. E há cristianismos espiritualmente estéreis, mesmo num ambiente de forte ênfase na evangelização ou na oração. Como podemos migrar de um cristianismo, ou de uma espiritualidade, estéril para uma que seja ativa, produtiva, rica?
Qual a ponte que me permite atravessar de uma para a outra?
Tudo tem a ver com nossa percepção do propósito de Deus, o propósito de nossa existência. Há uma percepção que, quando a temos (ou, se conseguimos chegar a tê-la) altera por completo nosso relacionamento com Deus. Trata-se de entender como Ele nos vê e do que estamos fazendo por aqui.
Deus nos vê essencialmente... Ele contempla constantemente o que somos segundo o plano original. Ele não se prende ao que é aparente, natural, caído... Nós porém julgamos as coisas a partir das aparências e isso nos impede de mantermos comunhão com Deus, com nosso próximo e um correto relacionamento com nós mesmos. Entenda o que quero dizer com a expressão comunhão: ter coisas em comum, falar uma mesma língua, ter o mesmo ponto de vista. Trata-se de ter os mesmos interesses que Deus e, respeitando sua superioridade, acatarmos aos seus pontos de vista, esforçando-nos alegremente para conhecê-los em maior profundidade.
Deus nos vê segundo a essência...Porém, o relacionamento com Ele só pode acontecer baseado nessa essência (segundo o plano original), quando nossa consciência se sente autorizada a admitir que isso é o que de fato somos. Se houver dentro de nós qualquer impressão de que isso não seja a verdade, vamos nos portar como se estivéssemos tentando sustentar uma farsa. Apenas quando podemos admitir que algo seja verdade, descansamos e seguimos o caminho com confiança.
Esse processo envolve termos Verdadeira fé no evangelho, pois, Cristo consagrou para nós um caminho que lhe custou a morte na cruz e culminou em poderosa e retumbante ressurreição. Por meio desta obra adquirimos com toda certeza da forte convicção o direito de nos considerarmos filhos de Deus, filhos no Filho, com pleno acesso a sua presença, herdeiros seus (Hb 10.12,19,22).
A mensagem do Evangelho nos apresenta a obra do Filho de Deus para nossa salvação. Na medida em que percebemos que todos os aspectos da experiência humana foram considerados e tratados com perfeição por Deus através de Cristo (2Co 5.17ss), adquirimos alegria e confiança para avançarmos rumo ao aperfeiçoamento em santidade. Quero enfatizar aqui que Jesus é "o Cristo" e que Sua manifestação tem por objetivo nos salvar "de" alguma coisa e "para" alguma coisa.
De quê Cristo nos salva?
Para quê Cristo nos salva?
De onde Ele nos tira e para onde nos leva?
Paulo responde a esta pergunta de modo magistral em Colossenses 1.13 ao dizer que Deus nos "libertou do domínio das trevas e nos transportou para o Reino de seu Filho amado". Se você entender que no Reino do Filho só há filhos, você começará a experimentar uma crescente alegria. Mas, vejamos a seguir, de modo resumido, de quê e para quê Cristo nos salva:
1. Ele nos salva da condenação de nossos pecados, perdoando-nos e justificando-nos, "para" vivermos sem culpa em sua presença.
2. Ele nos salva de uma vazia maneira de viver, regenerando-nos e nos dando esperança, "para" crescermos em santidade rumo à glorificação.
3. Ele nos salva da alienação de sua presença, adotando-nos e testemunhando pelo Espírito que somos seus filhos, "para" que a criação sinta algum alivio e o mundo experimente alguma transformação, até que chegue o dia da glorificação, em que Cristo será tudo em tudo, numa criação renovada.
Ainda que você ache que essas definições poderiam ser ampliadas ou encurtadas, seria um bom exercício intelectual pesquisar a escritura e extrair suas próprias definições. Porém, mais importante que isso, é que sendo biblicamente defensáveis, elas se transformem em sua maneira de pensar e viver, com Deus, consigo mesmo e com as demais pessoas, pois o objetivo da revelação não é o de meramente nos informar, mas, de nos transformar naquilo que já somos em Cristo, filhos e filhas de Deus (1Jo 3.1-3).
Caso esta mensagem tenha feito sentido para você, sugiro que leia com atenção os "para que" acima e decida fazer deles os alvos supremos de sua vida, pois, desse modo a vida de Deus estará encontrando plena expressão por meio de você, pois, você terá descoberto que não existem duas vidas (a de Deus e a sua) mas, apenas uma, e que, Ele o Teu Pai, É a Presença na qual tudo vive, se move e existe. Lembre-se de que em Cristo, Deus está em você e você nEle. Talvez seja útil deixar de pensar que apenas fazemos coisas para Deus, ou que fazemos as coisas da melhor maneira por causa de Deus.
Jesus disse que quem vem para a Luz realiza suas obras "em Deus" ou "por intermédio de Deus" (Jo 3.21). Isso fica ilustrado na magistral passagem de João 15. No versículo 5 Jesus declara que o fruto produzido pela ligação com Ele é, na verdade, a consequência de Ele ser "a Videira". Perceba que Ele não disse ser o tronco ou a raiz, mas, a planta inteira. Eu e você sim, somos cada um de nós um ramo em particular no contexto maior da videira verdadeira. Quero apenas dizer que, em Cristo, somos introduzidos numa forma de vida caracterizada por uma unidade essencial para com Deus. Leia 1Coríntios 6.17 e 2Pe 1.4 e peça ao Espírito Santo para que te ajude a chegar a uma conclusão que resulte em uma vida verdadeiramente impregnada pelo Espírito.
👆👆👆Como orientador espiritual de uma comunidade de crentes é importante para mim saber se você está compreendendo o que lhe escrevo. Você poderia, por exemplo, me mandar um texto ou áudio, expressando o efeito que estas palavras tem sobre sua mente. Pode também me enviar suas perguntas, pois, se são suas, de certo modo são também minhas e, por isso, são importantes para mim. Que o Senhor nos ilumine.







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