MINHA TOMADA DE CONSCIÊNCIA SOBRE A PASSAGEM
- 25 de jan. de 2021
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Todos desejam viver uma boa vida. Todos, sem exceção buscam o prazer e não o sofrimento. Podemos e devemos lidar com o sofrimento. Devemos inclusive nos preparar para sofrer, aprender como passar pelo sofrimento, mas, nenhum de nós quer o sofrimento. Até quem afirma que sente prazer no sofrimento não busca sofrer, e se busca, não é o sofrimento que busca mas sim
o prazer, algo de bom que imagina extrair dele. Então, até mesmo este busca o prazer. E quanto aquele que acha que merece sofrer para pagar suas culpas? ora, este suporta o sofrimento ou até mesmo o procura pelo prazer de ter a própria consciência apaziguada.
O motivo que me levou a escrever aqui, porém, não é o de falar sobre a boa vida, mas sim a boa morte.
Em minha cidade temos uma rua chamada Boa Morte. Desde criança a simples lembrança de tal nome me deixava intrigado. Como se pode dar um nome desses a uma rua? Não procurei, mas também não ouvi falar de nenhuma rua de minha cidade chamada de Boa Vida... nem de rua da vida, ou da vida eterna... apenas rua Boa Morte.
Quando completei 40 anos, algo que já vinha tomando forma dentro de mim se acentuou drasticamente... um sentimento de espanto ante a constatação de que a morte será uma experiência pela qual terei que passar. Entenda-se bem... será uma "experiência". O que estarei vendo ou ouvindo? Estarei sozinho ou alguém estará ao meu lado? Será dolorido ou será como a passagem para o sono? Será rápido?
Como você sabe, eu creio na Bíblia. Sou um pregador de sua mensagem. Creio em Jesus. Creio em imortalidade da alma. Creio ainda que estarei com o Senhor, provavelmente imediatamente após fechar meus olhos aqui. Estas são algumas características das crenças que tenho sobre a passagem. Mas, vista de uma perspectiva existencial, de uma experiência de estar ali, naquele momento, a morte vinha me causando arrepios e isso me fez orar muito, pois, percebi que não podia continuar evitando esse assunto.
Quando chegou a pandemia, o clima emocional generalizado me levou ainda mais a fundo nesta reflexão e a mais orações sobre isso. Porém, foi em dezembro que o processo atingiu um ponto culminante... pois, contraí o covid...
Minha respiração foi afetada. Eu estava orando por pessoas doentes e internadas enquanto eu mesmo estava ali tendo que lidar com a febre, a falta de ar e a dor emocional causada pela necessidade de permanecer isolado dentro de casa.
Olhando à minha volta, doía-me o fato de não poder abraçar minha família... e houve um momento em especial que pensei que não poderia evitar a internação e que era hora de fazer algumas preparações.
Escrevi cartas para algumas pessoas de minha família, encorajando-as a viver uma vida com Deus, a olhar para a frente e a permanecer firmes em face das vicissitudes desta vida. Escrevi para membros da administração da Igreja e ia escrever até mesmo uma carta para minha mãe (o que seria óbvio se não fosse o fato de ela viver distante de mim desde que eu tinha oito anos de idade...). Meu desejo era de escrever cartas muito especiais para alguns jovens de minha igreja e família que se afastaram da fé para viverem como quem jamais compreendeu a grandeza dos ensinos e da obra de Jesus Cristo.
Ao mesmo tempo em que escrevia, me fiz algumas perguntas:
Estou feliz com os resultados de meu ministério?
Minha caminhada com a igreja tem sido satisfatória?
Sei que se deixasse o mundo nesse momento, não poderia voltar atrás, não poderia reviver esses relacionamentos, não teria como repetir, nem mudar coisa alguma, minha obra aqui estaria concluída. O que eu fiz ou deixei de fazer teria sido congelado como minha história, sem chance alguma de mudança. E se eu partisse nesse momento, entre o mês de dezembro de 2020 e janeiro de 2021, partiria com a sensação de ter conseguido cumprir meu propósito? Antes que eu terminasse a questão em minha mente, senti a resposta vindo do fundo de minha alma, dizendo que não. Mas tenho que explicar, para que não me entendam mal.
Sinto que estou no exato lugar em que Deus me quis até aqui.
Sinto que nada me deixa mais feliz do que estudar a Palavra de Deus, seguir Jesus e ajudar pessoas a encontrá-lo e a viver uma vida significativa com Ele.
Sinto imensa alegria em minha família, ainda que algumas coisas não saiam sempre conforme o esperado, tenho um amor sincero por minha esposa, por meu filho, por minha menininha.
Não consigo me imaginar em outra função que não seja a de pastor, orientador espiritual de pessoas.
Porém, não podia dizer que estava completamente feliiz com isso.
Percebi que as coisas mais valiosas que eu tinha para ensinar, visto que as considero tão importantes para o andar com Cristo, não eram exatamente o que a maioria das pessoas que procuram ou frequentam uma igreja queriam aprender e fazer.
Creio na importância do cultivo da vida interior, da formação espiritual em Cristo. Sou um estudioso dessas coisas, mas, não sentia que até aqui houvessem pessoas que compartilhasse comigo o mesmo tipo de interesse (posso ter me enganado), e não me sentia na liberdade de trazer tais assuntos à tona, sem ter que me engalfinhar em discussões teológicas e ter que viver escapando ao tipo de discussões que tem o potencial de minar o ânimo de qualquer um...
Porém, ali, no vale do covid, tomei a decisão de que, se saísse dessa, seria para fazer o que eu sinto no fundo de meu coração, ser a vontade de Deus para minha vida e ministério.
Porém, outra pergunta ganhou espaço: e se o Pai quiser me levar agora? E se eu perceber uma piora e ficar claro que estou caminhando para fora da cena humana? Estou pronto para deixar este mundo sem remorso?
Por incrível que possa parecer, senti uma paz profunda... e com ela, o fim daquela sensação de espanto. Eu disse "sim" para o Senhor, pois, a Ele pertenço.
Uma verdade brilhou no meio da escuridão... "Viver, é Cristo"...Cristo é nossa vida, e, se Viver é Cristo, então a Boa Vida é andar em comunhão consciente com Ele. E a boa morte, é estar com Ele na passagem, sabendo que Ele disse: "Nunca te deixarei, jamais te abandonarei". Com tal promessa passamos a ver que não há morte, pois, se Cristo é a nossa vida, e o será para sempre, Ele é a vida enquanto estamos na terra e continua sendo nossa vida enquanto deixamos a terra para estar para sempre com Ele, que será nossa vida para sempre.
O resultado dessas reflexões fez desse tempo de isolamento um tempo de intensa prática da oração e da meditação. Li 6 livros sobre a vida espiritual e experimentei a presença de Deus de uma forma tão profunda como jamais havia experimentado. Agora, ao buscar a lembrança daqueles 14 dias, percebo que Deus acendeu em mim uma paixão por Ele e pelas pessoas e a determinação de ir a fundo, compartilhando o que Ele coloca em meu coração com todos os que, de algum modo, demonstrem ter por Ele essa mesma paixão.
Bendito seja o nome do Senhor.







Nesses momentos de dificuldades q paramos pra analisar tudo q vivemos até aqui...E o valor da vida e da morte! Maravilhoso texto!